“Medo de se indignar com a truculência”

By caminhantes

CADU ELMADJIAN não estuda mais na USP desde o ano passado, mas registrou uma opinião inconformada ao saber sobre o confronto da polícia no câmpus.

“O Deni repassou o relato de um professor da EACH sobre o que está havendo na USP e tudo isso é muito triste (como sempre…).

Não sei se é a minha cabeça problemática e delirante, mas eu me recordo com uma clareza perturbadora de como eu cresci junto a uma escalada cada vez mais intensa de intolerância entre as pessoas.

Talvez seja uma coisa só de São Paulo, talvez não. Ainda assim, eu me lembro, pequeno, de como as pessoas tinham menos medo de sair à rua, de falar com estranhos com os dois olhos bem abertos, e se indignar com a truculência.

Pessoalmente – muito por causa das minhas convicções filosóficas humanistas e ateístas – considero aterradora (e me sinto relativamente sozinho nesse sentimento) a passividade com que as pessoas assistem à violência atualmente. Parece que hoje está faltando uma palavra mais forte no léxico pra usar no lugar de barbárie.

Sobre o caso da USP especificamente, não vou opinar, porque sou um alheio eterno, mas tenho a impressão de que transferir para a PM todo o fardo da desgraça também não é muito razoável.

Um soldado da PM é um sujeito que vem de uma realidade não tão amigável quanto a dos nossos colegas uspianos, ganha pouco mais de 1.000 reais por mês pra sustentar uma família maior (estatisticamente falando) que a da maioria do pessoal da manifestação, enfrenta uma concorrência fodida pra estar onde está, pra fazer um serviço que quase sempre põe sua integridade em risco e não tem discriocionariedade administrativa (como a polícia civil ou federal), ou seja, apenas tem o dever de cumprir ordens (judicial ou de superior).

Não gosto da idéia de parecer advogado do diabo, até porque você sabe que eu jamais poderia concordar com essa postura que a PM freqüentemente adota quando desafiada, mas quando se grita “PM assassina!”, o melhor que se consegue é inflamar mais o ódio generalizado, reacender uma luta de classes despercebida e deixar impunes os verdadeiros responsáveis por alimentar essa infra-estrutura pública de selvageria.”

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