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E você, onde estava?

14/06/2009

MAGNO RODRIGUES FARIA, estudante de Pedagogia na FEUSP, não estava na Universidade durante o ataque – “para o bem e para o mal”, como ele disse.

“Contrariando uma série de pessoas que dizem que somos vagabundos, estava trabalhando bem no momento do quiproquó! Estava trabalhando na produção de um espetáculo de teatro no quarto subsolo do SESC Pinheiros… Onde celular não pega!! Trabalhei até às 20h, que foi quando o meu celular começou a receber mensagens de chamadas perdidas… Minha mãe, irmãs, o pessoal do CA, os amigos… todos haviam me ligado… o que é um fato não muito comum… Tinha uma série de mensagens perguntando se eu estava bem e tudo mais, porém não estava entendo nada… Havia uma mensagem de texto de uma amiga que há muito tempo não nos comunicávamos e conversamos sobre a vida, o seu novo filho, a sua nova casa e aí ela perguntou: e a guerra que teve na USP hoje, hein?

Caraca!! Lembrei do ato e pedi informações, ela me disse que teve bomba de gás, tiros de borracha, gás de pimenta… Mas não sabia, não tinha idéia da proporção… E vi imagens televisivas e, caras e caros, ainda bem que estava de fora… Não no sentido de que me safei desta… mas, se eu presenciasse os meus amigos, muito deles irmãos em cenas destas, sendo encurralados e agredidos, acredito que não iria recuar e faria alguma bobagem…

Cheguei na USP por volta da meia noite neste dia e fui até o C.A.P.P.F. e tinham pessoas que me contaram versões e mais versões dos fatos… O fato é que fiquei estarrecido… e que fiquei entristecido quando no outro dia, haviam pessoas em estado de normalidade… como se NADA, eu disse NADA, repetindo para fixar, NADA tivesse acontecido…NADA… (e o pior é que muitas estavam no momento, e outras tantas viram ao vivo tal selvageria e…NADA).”

***

No caminho, com Maiakóvski
Eduardo Alves da Costa

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.

Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.

No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!